“O fim está próximo, temos que sair daqui, apenas pare de chorar.”
NOTA: 10/10
Após a adaptação de “Perdido em Marte” render sete indicações ao Oscar para a Fox (hoje Disney), foi a vez da Amazon apostar no conto mais recente de Andy Weir, “Project Hail Mary”, como sua primeira grande produção a chegar diretamente às telonas antes do streaming.
O risco se provou acertado: o longa conquistou a segunda maior abertura da história para um filme fora de franquias, ficando atrás apenas de “Oppenheimer”, de Christopher Nolan.
A trama acompanha o professor Ryland Grace (Ryan Gosling), que embarca sozinho em uma missão espacial para salvar a Terra em uma galáxia distante. O espectador é colocado no mesmo ponto de vista do protagonista: acordamos com ele no espaço, sem lembranças do que o levou até ali, e, à medida que a narrativa avança, fragmentos de sua vida na Terra retornam para contextualizar a missão.
A decisão de alternar entre passado e presente se mostra acertada. O grande trunfo do filme está justamente em sua ficção científica e na imensidão do desconhecido. Priorizar uma narrativa totalmente linear poderia diluir o impacto do desenvolvimento do personagem, além de reduzir a curiosidade do público em entender, de fato, “o que está acontecendo aqui?”.
Ainda assim, as cenas na Terra não diminuem o ritmo — pelo contrário. Funcionam como complemento essencial ao presente, fortalecendo cada decisão e introduzindo personagens que brilham em tela, como Eva Stratt (Sandra Hüller) e Carl (Lionel Boyce).
Sandra Hüller, indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 2024 por “Anatomia de uma Queda”, interpreta uma das líderes por trás do projeto Hail Mary. Mesmo com tempo de tela limitado, sua interação com Ryan Gosling — especialmente em um marcante momento com um microfone — prende e emociona. Afinal, como apontado nas redes sociais, precisamos de mais cenas de karaokê com Sandra Hüller.
A dinâmica entre Grace e Rocky é, sem dúvidas, o coração do filme. Diferentemente do livro, a Amazon optou por revelar o personagem, um alienígena feito de rochas, ainda na campanha de marketing, decisão que gerou críticas. Ryan Gosling chegou a justificar: vender o filme sem Rocky seria como divulgar “E.T.” como a história de uma família suburbana com problemas conjugais.
E, de fato, conhecer previamente o personagem não diminui em nada o impacto de vê-lo em cena. Pelo contrário: o fascínio da relação entre os dois sustenta as mais de duas horas e meia de duração, mantendo o espectador engajado, emocionado e completamente imerso. Se existisse um prêmio para melhores companheiros inanimados, Rocky venceria todos os anos.
O roteiro, assim como em “Perdido em Marte”, é assinado por Drew Goddard, showrunner da aclamada série “Demolidor”, da Netflix. Sua primeira adaptação de uma obra de Andy Weir já lhe rendeu uma indicação ao Oscar e, tomando isso como base, há fortes indícios de que o feito pode se repetir na próxima temporada de premiações.
Na direção, Phil Lord e Christopher Miller retornam ao live-action após mais de uma década desde “Anjos da Lei 2” (2014). Nesse intervalo, consolidaram seu nome com animações aclamadas como “Homem-Aranha no Aranhaverso”, “Homem-Aranha: Através do Aranhaverso” e “Uma Aventura Lego”, além de enfrentarem projetos cancelados, como o filme do Sexteto Sinistro.
O afastamento dos sets com atores reais, no entanto, não os impediu de entregar aqui sua obra mais ambiciosa e possivelmente a melhor de suas carreiras.
A fotografia fica por conta de Greg Fraser, responsável por trabalhos como “The Batman” e “Duna”. Mais uma vez, ele demonstra por que é presença constante em grandes produções. Seu olhar é essencial para momentos de puro deslumbramento, como o encontro de Grace com os “devoradores de estrelas” — uma sequência de tirar o fôlego, potencializada pela forma como Fraser imprime emoção através da câmera.
Misturando ficção científica, comédia e drama, “Project Hail Mary” se sustenta tanto pelo espetáculo visual quanto pelo carisma de seus personagens. O que poderia ser apenas mais uma adaptação de sucesso se transforma em uma experiência envolvente e emocionalmente potente.
O tiro no escuro da Amazon já se tornou seu maior sucesso até hoje e, ainda que cedo, o filme surge como presença praticamente certa entre os principais prêmios da temporada.
Imagem: Divulgação


