Cara-de-Barro: DC se arrisca no cinema de gênero mas não consegue aproveitar seu potencial
Longa estreia nesta quinta-feira (22) com aposta inédita no terror
CRÍTICA
Caio Aquino
10/21/20262 min read


O subgênero do body horror surgiu em uma evolução do terror desde adaptações clássicas como Frankenstein, mas se consolidou com David Cronenberg em longas como Calafrios e Enraivecida. Em 1986, Cronenberg estreava “A Mosca”, filme que se tornou base para muitos que tentam explorar a deformação do corpo como linha narrativa.
Cara-de-Barro surge neste contexto como a aposta de James Gunn e Peter Safran para inovar no cinema de heróis, onde tentam mostrar que seu novo universo pode flertar com todo estilo de filme, como Gunn defendeu.
O filme foi idealizado pelo subestimado diretor de terror Mike Flanagan, porém, a pressão do estúdio somado à agenda levou a direção do filme para James Watkins. E a pressa para lançar um filme sem apelo industrial fez com que o potencial do cinema de terror tenha sido desperdiçado.
O longa conta a história de Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator em ascensão que se envolve com a Máfia de Gotham e tem seu rosto desfigurado. Após perder tudo na vida, ele recorre à medicina experimental para consertar seu rosto, porém, os efeitos começam a deformar seu corpo e mente.
O subgênero costuma se guiar pela deformação do corpo humano como linha narrativa para contar a história. Quando isso é explorado, o filme se destaca em identidade numa indústria onde super-heróis funcionam como um “copia e cola”.
Entretanto, é nítido quando Watkins e o estúdio têm medo de se jogar nesse gênero que captura um público específico e diferente do que estão acostumados. Nesses momentos o longa se guia por uma clássica jornada do herói subvertida e relações sentimentais que não avançam o enredo. Quase como pausas e respiros antes de se arriscar novamente.
Com um personagem criado para explorar deformidade e estrutura corporal, a DC Studios parecia mais preocupada em agradar dois públicos que não costumam se misturar e, no fim, criaram uma história genérica que se confunde em seu gênero e não consegue explorar o valor técnico investido.
Citado nas entrevistas por Watkins e o produtor Matt Reeves, era muito importante criar uma cidade de Gotham especial, que funcionasse quase como um personagem no filme assim como nos quadrinhos.
No entanto, esse esforço não foi visto em tela. Gotham é mais citada do que mostrada, os personagens estão mais preocupados com a cidade do que o diretor de fato mostrar os terrores dessa “Nova Iorque gótica”, assim como fez Tim Burton e Matt Reeves.
Contudo, Tom Rhys entrega uma atuação apaixonada pela história e pelo personagem. Ele consegue entregar o humor sombrio com a deformação e loucura vilão enquanto parece entender a história melhor do que Watkins.
No fim, esperar por Flanagan por mais dois ou três meses, poderia entregar uma produção com mais identidade, técnica e coerência do que a apresentada.
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