O Senado suspendeu, na semana passada, a validade da Resolução nº 258/2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que trata do atendimento humanizado de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual e da garantia de seus direitos, entre eles o acesso ao aborto legal quando a gravidez é decorrente de estupro.

“A Mosca” (1986), de David Cronenberg, mesmo depois de 40 anos, ajuda a explicar o óbvio para este momento reacionário que o mundo vive. O longa narra o experimento de teletransporte do cientista Seth Brundle, que decide testar a eficácia de sua invenção em si próprio de maneira inconsequente, após estar bêbado e tomado por ciúmes da mulher por quem se apaixona durante o filme, a jornalista Veronica Quaife. Sem que ele perceba, uma mosca cai no aparelho durante o processo e provoca uma fusão entre ele e o inseto.
Cronenberg adapta a história de George Langelaan e constrói seu filme a partir do corpo, tanto pelo impacto visual e grotesco quanto pelas discussões que suscita sobre o corpo feminino. O principal problema temático que o diretor traz aqui é excelente para exemplificar o quão problemática é a decisão tomada pelo Senado na última semana, mas é uma pena que a maioria desses senadores provavelmente não tenha capacidade de compreender isso.
Durante 1h10 de filme, nos é mostrado como esse homem perde sua humanidade, transforma-se em um monstro e deixa de ser o cientista por quem Veronica havia se apaixonado. Até que, nos minutos finais, é apresentado um fato novo que altera completamente a percepção sobre para onde caminhava a discussão proposta pelo longa. Mesmo quando já está evidente o quão absurdo é o que aconteceu, os homens continuam tentando controlar o corpo e a decisão da única pessoa que está com a razão, mas é tratada como histérica.
Há 40 anos, Cronenberg filmou uma história que, até a semana passada, muitas pessoas provaram que ainda não entenderam.


