Josh e Benny Safdie sempre entenderam como poucos a intensidade da vida cotidiana, sua correria, suas obsessões e, principalmente, sua ambição.
Esses elementos atravessam a filmografia da dupla em obras como Bom Comportamento e Joias Brutas, onde personagens vivem à beira do colapso em busca de algo maior do que eles mesmos.
Após os irmãos se separarem pela primeira vez, em 2025, para projetos solo, criou-se uma narrativa quase esportiva sobre quem seria o “melhor” Safdie. Mas a história real é outra, ganhamos dois filmes dos Safdies no mesmo ano.
Benny chamou atenção em Coração de Lutador, estrelado por Dwayne “The Rock” Johnson. Agora, é a vez de Josh brilhar ao lado de uma das maiores estrelas d
a atualidade, Timothée Chalamet, em Marty Supreme, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (22).
Confira o trailer
No longa, somos apresentados ao mesatenista Martin “Marty” Reisman (Chalamet), campeão americano em 1958, 1960 e 1997. Uma figura real inserida em uma narrativa ficcional ambientada na clássica Nova York dos anos 1960.
Com um senso quase patológico de superioridade, acreditando ter nascido para algo maior do que sua própria realidade, Marty tenta desde a abertura do filme sufocar o mundo ao seu redor para viver apenas sobre uma mesa de pingue-pongue. De um lado para o outro, sua vida se organiza como um caos controlado, onde cada partida é também um reflexo de seus conflitos internos.
Para Chalamet, que já declarou buscar a grandeza em seus papéis, a escolha é precisa. Em uma atuação madura, ele entrega raiva, amor, ambição, preconceito, carisma e complexidade coexistindo no mesmo personagem. Tudo isso potencializado pela direção de Josh Safdie, que coloca o espectador literalmente dentro da pele de Marty, fazendo cada cena ser sentida, não apenas observada.
A presença de Odessa A’zion também merece destaque. Mesmo contracenando com um ator do peso de Chalamet, ela não é ofuscada em nenhum momento. Pelo contrário, há uma química evidente entre os dois e, quando dividem a cena, a qualidade das atuações cresce. Odessa entende o ritmo caótico de Marty e responde com naturalidade, criando uma relação que não serve apenas como apoio emocional ao protagonista, mas como combustível narrativo para que ele se revele ainda mais complexo e humano.
Já a personagem de Gwyneth Paltrow representa algo quase intangível na vida de Marty. Ela não é apenas um interesse amoroso, mas a materialização de tudo o que ele acredita merecer, status, beleza, reconhecimento e pertencimento a um mundo que parece sempre um passo além do seu. O fato de Marty conseguir ficar com ela funciona, para ele, como uma confirmação simbólica de que não nasceu para ser sapateiro, mas alguém dotado de um talento superior aos outros.
É como se aquele relacionamento validasse sua obsessão, a certeza de que a grandeza e a riqueza extrema são inevitáveis, não importa o que ele precise fazer ou se humilhar para alcançá-las.
O frenesi da trajetória do protagonista é ampliado pela própria cidade que o cerca. A mesma Nova York que já pulsava ao lado de Adam Sandler em Joias Brutas retorna aqui como um organismo vivo, barulhento, claustrofóbico e perfeito para traduzir a ansiedade constante que Marty carrega.
Outro acerto do elenco é Tyler, The Creator. Mesmo vindo de fora do circuito tradicional da atuação, o rapper entrega um personagem carismático, magnético e surpreendentemente seguro em cena. Sua presença traz leveza e personalidade ao filme, funcionando como um contraponto ao desespero constante de Marty. Tyler não parece um músico “fazendo participação”, mas alguém que entende o universo dos Safdies e se integra organicamente à narrativa, tornando seu personagem um dos mais interessantes do entorno do protagonista.
A trilha sonora também atua como elemento narrativo. A escolha de Forever Young, do Alphaville, e Everybody Wants to Rule the World, do Tears for Fears, não é gratuita. Mais do que falar de ambição, Marty Supreme é sobre amadurecimento. Quando ouvimos o verso “Welcome to your life, there’s no turning back…”, é justamente o momento em que as consequências das decisões de Marty começam a se voltar contra ele, conduzindo-o, enfim, à aceitação.
Josh Safdie não faz apenas um filme sobre esporte, mas sobre ego, identidade e a necessidade humana de provar valor, mesmo quando isso significa se perder no caminho.
Por fim, Marty Supreme entrega um drama cômico, sufocante e elétrico, que faz o espectador perder completamente a noção do tempo. O filme provoca uma relação ambígua com seu protagonista, você torce por Marty, mas também aprende a odiá-lo, muitas vezes mais a segunda opção. No centro disso está um estudo potente sobre ambição e amadurecimento, onde crescer não significa vencer, mas encarar o preço das próprias escolhas.
Com uma atuação arrebatadora, Timothée Chalamet surge como nome fortíssimo para a temporada de premiações, especialmente na disputa por Melhor Ator. Se o Oscar virar uma mesa de pingue-pongue, Marty Supreme já entra jogando entre os favoritos, pronto para trocar bolas de igual para igual, inclusive com Wagner Moura.
Nota: 10
Ficha técnica:
Título original: Marty Supreme
Direção: Josh Safdie
Roteiro: Josh Safdie e Ronald Bronstein
Elenco: Timothée Chalamet, Gwyneth Paltrow, Odessa A’zion, Kevin O’Leary, Tyler Okonma, Abel Ferrara, Fran Drescher
Gênero: Comédia-drama esportivo
Duração: 2h30
Classificação Indicativa: 16 anos
Por Caio Aquino
Assistiu ao filme a convite da Espaço/Z
Trailer e fotos: divulgação


